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© Kathleen A. Brehony
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O CRESCIMENTO E A BUSCA DA INTEIREZA
Kathleen A. Brehony
Este texto faz parte do livro Despertando na Meia-idade
de Kathleen A. Brehony. Agradecemos a Paulus Editora pela permissão de reproduzirmos este capítulo
aqui na Rubedo. Conheça mais sobre este e outros livros da Paulus acessando a Revista de Literatura.
Não cessaremos de explorar
E o final de toda exploração
Será chegar aonde começamos
E conhecermos o lugar pela primeira vez.
T. S. Eliot,
Four Quartets, Little Gidding, 1942.
Perguntaram a Michelangelo como ele criava esculturas tão magníficas a partir de um bloco de mármore
frio: "Como criou tamanha beleza, tanta divindade que é a Pietà? Como infundiu tanta magnificência ao Davi?" conta-se
que Michelangelo respondeu: "Não fiz nada. Deus os colocou dentro do mármore, já estavam
lá, apenas tive que retirar as partes que não permitiam que você os visse".
Nós, assim como o Davi e a Pietà, já estamos dentro de nós mesmos. Nascemos inteiros com tudo psicológica e espiritualmente intacto. Bem, no princípio, somos um com nossas mães e um com o universo. Não há consciência nem ego, tudo está no inconsciente. Somente quando desenvolvemos um censo consciente do "eu" é que começamos a experimentar a separação de tudo aquilo de que uma vez fomos parte. À medida que crescem e se desenvolvem, as crianças começam a se ver como separadas das outras pessoas e dos objetos do seu ambiente. Perto do segundo aniversário, a linguagem começa a refletir esta conscientização em mudança, quando a criança começa a falar de si mesma na primeira pessoa, como "eu" ou "mim". Neste estágio, as crianças estão aprendendo, como sugeriu M. Esther Harding, a diferenciar o "eu" do "não-eu"1. Estão experimentando o nascimento do ego e o início da consciência. À medida que vamos desenvolvendo este senso de individualidade, começamos a nos mover numa direção que nos separa ainda mais do senso de "unicidade" com tudo e com todos e do nosso relacionamento com o Divino. À medida que nos movimentamos pela vida, adquirimos uma maior identificação com o ego, uma camada mais espessa da persona e uma distância cada vez maior das nossas verdadeiras naturezas. "Eu" torna-se um senso intensificado de quem devemos ser, a fim de nos adaptarmos ao nosso ambiente externo. De fato, nos tornamos cada vez mais iguais uns aos outros, à medida que nos adequamos a prescrições sociais, a exigências de nosso sexo, a objetivos da nossa família e a advertências religiosas. Não demora muito para começarmos a acreditar que somos apenas esta personalidade que mostramos ao mundo. Não há nada único, algo que diga "eu sou eu". Mas há forças interiores se destilando e fervendo quando chegamos à metade da vida. Se algum dia temos de descobrir quem realmente somos, o melhor é começar agora mesmo. A meia-idade é um tempo no qual, como Michelangelo, podemos começar resolutamente o cuidadoso processo de desbastar as partes que nos impedem de ver o que realmente há dentro.
Abraham Maslow descreve o processo de crescimento e auto-conscientização
como auto-efetivação - tornar-se tudo aquilo que se é capaz de ser2. Jung chama este caminho, esta jornada para o nosso si-mesmo autêntico, de processo
de individuação (do latim individuus, que significa "indiviso", não fragmentado, ou "inteiro".
Individuação, para Jung, é o processo pelo qual os seres individuais são formados e
diferenciados; em particular, é o desenvolvimento do indivíduo psicológico enquanto distinto
da psicologia geral, "coletiva"3. De fato, para Jung, o processo de individuação
não se limitava somente aos seres humanos. Ele acreditava que tal processo fosse a expressão de um
processo teleológico pelo qual tudo se torna aquilo que desde o início estava destinado a ser. Este
processo do "chegar ao si-mesmo", no cumprimento do destino da pessoa, seguindo a sua única e
exclusiva via de desenvolvimento, não é apenas uma teoria da personalidade desenvolvida por psicólogos
do século XX, tais como Maslow, Jung, Carl Rogers, Fritz Perls e Alfred Adler, mas, sim, uma idéia
que vem ressoando em todas as culturas ao longo da história da raça humana. È uma filosofia
do crescimento e do desenvolvimento da personalidade que pode ser encontrada ao longo da filosofia ocidental desde
o s tempos de Aristóteles e que aparece nas obras de Schopenhauer, Tomás de Aquino, Leibniz, Espinosa
e Locke, entre outros. O mundo antigo está repleto de imagens, mitos contos de fada, poesias e orações
que esboçam o caminho em espiral até o Si-mesmo. Os índios navajo chamam a jornada de "Caminho
do Pólen", os sioux o denominavam "A Boa Estrada Vermelha" e os chineses dizem simplesmente
"Tao". Todos estes sistemas de crenças tocam a dimensão do mistério divino. O termo comum entre estas diversas tradições é que
a vida é uma jornada e a meta é a descoberta de nossa verdadeira natureza, uma transformação
de nossa visão de mundo, uma sabedoria apurada e uma conexão autêntica e amorosa com tudo aquilo
que pertence à vida e com algum poder universal maior.
As características do ser humano inteiramente efetivado, da pessoa individuada, demonstram tanto maturidade
psicológica quanto esclarecimento espiritual. Abraham Maslow especificou traços comuns desta meta
para o desenvolvimento da personalidade4:
1. Orientação realista
2. Aceitação de si mesmo, dos outros e do mundo natural
3. Espontaneidade
4. Orientação para a tarefa, em vez de preocupação consigo mesmo
5. Senso de privacidade
6. Independência
7. Vívida apreciatividade
8. Espiritualidade que não é necessariamente religiosa no sentido formal
9. Senso de identidade com a humanidade
10. Sentimento de intimidade com alguns poucos entes queridos
11. Valores democráticos
12. Reconhecimento da diferença entre os meios e os fins
13. Humor que é filosófico em vez de ser hostil
14. Criatividade
15. Não conformismo.
As idéias de Maslow sobre a personalidade auto-efetivada descrevem um indivíduo psicologicamente
maduro, que conhece a si mesmo, é capaz de ter relacionamentos significativos e íntimos com os outros,
tem profunda compreensão da experiência humana e é capaz de grande alegria e de um senso de
ligação com as forças do universo.
Assim como Maslow, Jung acreditava que o objetivo da vida era a manifestação do núcleo único ou individual ou "Si-mesmo", que é inerente a cada pessoa. O movimento natural na direção do Si-mesmo, a individuação, é ao mesmo tempo um princípio e um processo que está subjacente a toda atividade psíquica. Tudo aquilo que vive amadurece. O carvalho já está imaginado dentro da bolota. A flor já está presente, se não ainda visível, dentro da semente. Para Jung, o mesmo acontecia com os seres humanos. Temos dentro de nós quem devemos ser. Mas este caminho da individuação, segundo Jung, não é apenas um processo natural que simplesmente "acontece". Não é um processo passivo. Pelo contrário, precisa ser experimentado conscientemente, isto é, com conhecimento. De fato, é esta idéia de que a individuação é um processo consciente que a torna tão importante. Caminhamos para a inteireza quando começamos de fato a nos conhecer. Este conhecimento depende de um relacionamento vital, de um diálogo, de uma dialética, entre o ego e o inconsciente. Para Jung, a meta não é ser perfeito e, sim, ser inteiro. A inteireza, por definição, inclui um conhecimento de todos os aspectos da nossa personalidade, inclusive aquelas características que preferíamos não reivindicar para nós. Jung observou: "A meta não é superar nossa psicologia pessoal, tornar-se perfeito, mas familiarizar-se com ela. Assim, a individuação inclui um conhecimento crescente da própria realidade psicológica singular, inclusive de forças e limitações pessoais, e ao mesmo tempo uma profunda apreciação da humanidade em geral"5.
Ninguém realmente individual totalmente, torna-se completamente inteiro ou totalmente esclarecido. O valor do processo está, antes, naquilo que acontece ao longo do caminho; aquilo que nós aprendemos sobre nós mesmos, sobre a experiência de ser humano, sobre o nosso relacionamento com nós mesmos, com a vida inteira e com o cosmos. É a própria jornada que é o destino. O conceito de que o importante é o processo mesmo, é uma idéia estranha à nossa sociedade votada aos resultados. Ficamos muito mais à vontade com a idéia de chegar a um destino do que com a de contemplar ativa e conscientemente a jornada. Mas é a trilha mesma que precisa ser o centro da nossa atenção. Jung escreveu: "A meta é importante, mas somente como idéia. O essencial é o opus que conduz à meta: essa é a meta da vida inteira"6. Em outras palavras: quando estamos na trilha, já chegamos à meta.
E estamos sendo movidos nessa trilha pelo nosso próprio empenho interior em nos tornar quem sempre deveríamos ser. E esse processo leva naturalmente a uma abertura do espírito, a uma sabedoria interior mais profunda, ao esclarecimento. Neste lugar é possível amar incondicionalmente a si mesmo e aos outros. Mas a trilha nunca é regular, nem fácil. Requer coragem e fé no processo, para abandonar a mentalidade coletiva, para sair do que é seguro e conhecido. Esta idéia de partida daquilo que é seguro para enfrentar o desconhecido e embarcar em aventuras que levam em conta uma transformação do Si-mesmo é descrita em histórias e mitos provenientes de todas as culturas e ao longo de todos os períodos da história. Joseph Campbell, mais do que ninguém, chamou a nossa atenção para essa transformação em "Jornada do herói".
Na trilha do herói
No seu conhecido livro e série de TV O poder do
mito, Bill Moyers pergunta a Joseph Campbell: "Por
que existem tantas histórias de herói na mitologia?" "Porque", responde Campbell,
"é sobre isso que vale a pena escrever... A aventura habitual do herói começa com alguém
de quem se tomou alguma coisa, ou que sente que falta algo nas experiências normais disponíveis ou
permitidas aos membros de sua sociedade. Esta pessoa parte então para uma série de aventuras fora
do comum, ou para recuperar o que foi perdido, ou para descobrir algum elixir da vida. Normalmente é um
ciclo, uma ida e um retorno"7.
A prolífica obra de Campbell sobre o mito do herói, em múltiplas culturas e de todos os períodos da história, revelou a mesma história constante em cada um deles. Este "monomito", esta jornada do herói, diz Campbell, é uma "amplificação da fórmula representada nos ritos de passagem"8. Cada jornada começa com um chamado à aventura, seguido de uma separação, uma iniciação e um retorno. Campbell chama a isto a "unidade nuclear do monomito" e a descreve como segue: "Um herói sai do mundo do dia-a-dia e se aventura numa região de maravilha sobrenatural; lá se encontram forças fabulosas, e se obtém uma vitória decisiva. O herói retorna da sua misteriosa aventura, com o poder de conceder benefícios aos seus semelhantes"9.
Este "rito de passagem" é constante quando examinamos mitos e culturas que nos são conhecidos ou estranhos: Prometeu roubando o fogo dos deuses; Psique realizando as tarefas exigidas para voltar a se unir ao seu companheiro, Amor; a descida e a subida de Inana das profundezas do mundo inferior; Jasão lutando com o dragão para ficar com o tosão de ouro, Luke Skywalker, em Guerra nas Estrelas, tornando-se um homem e emergindo finalmente da sombra do pai10. O meu mito favorito que deixa bem claro este processo é uma história escrita para crianças e bastante conhecida do público, a aventurado herói de Dorothy no Mágico de OZ.
No início da história, Dorothy está lamentando a vida sem graça que leva na fazenda no estado de Kansas com sua tia Emily e seu tio Henry. Anseia por horizontes mais vastos e pessoas e lugares mais interessantes. E recebe o chamado para a aventura com o repentino surgimento de um tornado. Como não consegue se juntar aos outros no brigo da família contra tempestades, ela, o seu cachorrinho Totó e a casa são engolidos pelo olho do tornado e vão parar numa terra que é ao mesmo tempo mágica e assustadora. Separada de tudo o que é familiar, seguro e tranqüilizador, Dorothy apela de início para os estranhos que encontra e pede que a ajudem a encontrar o caminho de casa. Inadvertidamente, a sua casa caiu sobre a Bruxa Malvada do Leste ela é tratada como heroína pelos moradores de Munchkinlândia. Eles gostariam de ajudá-la. Na maioria dos mitos, como na vida, se encontra ajuda pelo caminho. Glinda, a bruxa bondosa, chega a lhe mostrar a direção certa: "Siga a estrada dos tijolos amarelos", diz ela a Dorothy. No final desta estrada, há a Cidade das Esmeraldas e um Mágico muito bondoso e poderoso que vai ajudar Dorothy a voltar para casa.
Enquanto viaja, Dorothy faz novos amigos que também estão procurando coisas importantes para as suas vidas. Encontra o Espantalho, que concorda em acompanhá-la e vai pedir um cérebro ao Mágico. Encontra o Homem de Lata, que quer um coração, e um Leão Covarde, muito covarde, que deseja apenas coragem. Estas personagens estão buscando coisas que são importantes para todos nós: cérebro (sabedoria), coração, coragem e casa.
Embora aterrorizados pela Bruxa Malvada do Oeste (afinal de contas, a casa de Dorothy caiu em cima da irmã dela), os nossos heróis finalmente chegam para Ter uma audiência com o Maravilhoso Mágico de Oz. Ficam sabendo que precisam cumprir uma tarefa antes de os seus desejos serem realizados. Precisam trazer a vassoura da Bruxa Malvado do Oeste. Como a vassoura tem um grande valor para ela, que nunca a deixa, precisam acabar com a bruxa a fim de consegui-la.
Dorothy e seus amigos ficam amedrontados só de pensar em enfrentar a Bruxa Malvada, porque ela é poderosa e má. Com relutância, começam a sua aventura, pois, ao que parece, essa é a única maneira de conseguir que o Mágico lhes dê o que precisam. No decorre do processo, aprenderão a se importar uns com os outros com profundidade. O mais importante é que o espantalho toma muitas decisões sensatas, o homem de Lata age movido pela lealdade do coração e o Leão reage com a coragem e a bravura apesar de seus medos.
Depois de encontrar a Bruxa Malvada e pegar a vassoura, retornam à Cidade de Esmeraldas, onde o Mágico os ajuda a entender que cada um deles já possui aquilo que está pedindo. "Para o espantalho, o problema não era a falta de cérebro, era evitar s experiências que iriam provocar o conhecimento. Agora que ele é capaz de arriscar estar errado, às vezes age de maneira sensata. Aconteceu a mesma coisa com o Homem de Lata, não era de coração que ele precisava, era de boa vontade para suportar a infelicidade. E, é claro, o Leão Covarde precisava, não de coragem, mas de confiança para saber que era capaz de enfrentar o perigo mesmo quando estava com muito medo"11.
Dorothy fica sabendo que todo o tempo teria podido voltar para casa, graças aos sapatinhos de rubi que ela descobriu que estava calçando ao chegar àquela nova e estranha terra. Bastava bater um salto no outro três vezes e dizer: "Não há lugar como a nossa casa".
Como todos os mitos dos verdadeiros heróis, esta história reflete o chamado para a aventura, a separação, a aventura e o retorno. Como em todos os mitos clássicos, Dorothy volta transformada para sempre pela sua experiência. Agora entende de fato que não há lugar como a nossa casa e que tudo aquilo que realmente queria estava ali o tempo todo.
Esta iniciação, este rito de passagem empreendido por Dorothy e por todos os outros "heróis" é um processo bem conhecido de muita gente que sentiu o chamado para a aventura quando menos esperava.
Aos 38 anos, J. T. era bem sucedido nos negócios e havia construído a própria empresa a partir do zero. Era um verdadeiro viciado em trabalho e freqüentemente passava mais de 15 horas por dia atrás de mais dinheiro e maiores lucros. J. T. vinha de uma família grande, na qual todos os filhos tinham um relacionamento muito próximo com a mãe. O pai foi embora de casa quando J. T. tinha apenas 12 anos, e essa foi a última vez que J. T. o viu. O pai não tinha contato com ele e com nenhum outro membro da família e não demonstrava responsabilidade quando se tratava de mandar meios de subsistência para a mulher e os filhos. As lições da infância foram muito dolorosas, mas J. T. trabalhou duro para melhorar e subir na vida. Tinha dois empregos de meio período e freqüentava uma universidade da cidade, na qual, apesar do pouco tempo que dispunha, se diplomou com distinção. Com o passar do tempo, foi dedicando uma parte cada vez maior da vida ao trabalho e à manutenção de uma forte posição de liderança na comunidade e uma posição de destaque num grupo comercial para empresários negros. Mas tinha de sacrificar alguma coisa a fim de poder dedicar toda a sua energia ao trabalho e à comunidade, e raramente tinha tempo para a mulher e os filhos. Desde a morte da mãe, anos antes, vinha se distanciando cada vez mais dos irmãos e irmãs, embora o resto da família permanecesse muito unido. Todos sempre o convidavam para reuniões e almoços em família, embora raramente tivesse tempo para comparecer.
Dois dias depois do seu 39° aniversário, J. T. fez um exame físico de rotina que revelou que ele tinha câncer. O câncer já havia se espalhado para o sistema linfático e o médico disse a J. T. que o prognóstico era ruim. Ele ficou apavorado e confuso. "Por quê eu?", perguntou. Tudo estava indo tão bem. Ele havia dedicado a vida a se tornar tudo quanto o pai não fora: um cidadão responsável e trabalhador. Sempre procurou ser justo, honesto e desenvolver algo à sua comunidade. Ele e a mulher estavam desenhando a planta da casa dos seus sonhos e o filho mais velho estava se preparando para ir à universidade no ano seguinte. A reação de J. T. não é incomum: ele não merecia aquilo. Estava aprendendo que uma das realidades da vida é que ela nem sempre é justa. James Hollis observa: "Um dos choques mais poderosos da passagem da meia-idade é o colapso do nosso contrato tácito com o universo – a pressuposição de que se agirmos corretamente, se tivermos bom coração e boas intenções, as coisas darão certo. Pressupomos uma reciprocidade com o universo. Se fizermos a nossa parte, o universo fará a dele"12.
Durante os seis meses seguintes, J. T. diminuiu drasticamente suas horas de trabalho. Não tinha escolha: a quimioterapia o deixava enjoado e fraco. Desistiu da maioria das suas responsabilidades da firma e passou-as para um de seus gerentes mais experientes e leais. Apesar de ter se tornado tão distante dos irmãos e irmãs, eles se revezaram para apoiá-lo. Uma irmã em particular passava horas e horas com ele. Lembrou-se de quanto ele gostava de tangerinas, quando menino, e encomendou algumas. E lá, nas manhãs frias e cinzentas de inverno na sua cidade do nordeste dos Estados Unidos, ela descascava as tangerinas e com delicadeza espremia o suco na boca do irmão. O irmão de J. T. ajudava a cunhada e os sobrinhos com os serviços externos da casa, buscava as compras e duas vezes por semana o levava às seções de quimioterapia e radiação. O irmão mais novo, que ele sempre havia considerado um quase fracassado, por não haver terminado os estudos e ter dificuldade em ficar no emprego, levava o filho de J. T. à noite na escola. A esposa de J. T., que ele amava, mas de quem havia se distanciado bastante, reduziu drasticamente o seu trabalho voluntário e passou muitas tardes aconchegada ao lado dele, uma coisa, uma coisa que eles gostavam muito de fazer no começo do seu relacionamento.
Mesmo com toda a atenção e amor dados a ele, o estado de J. T. continuava a piorar. Os médicos lhe disseram que a sua única chance de vida seria um transplante de medula óssea, procedimento altamente perigoso que exigiria meses de isolamento numa unidade especial do hospital. Davam a ele menos de 50% de chance com o transplante e zero sem ele.
Na UTI, entre a vida e a morte, J. T. começou a rezar. Estava completamente separado de todas as maneiras pelas quais se definia antes de isso acontecer: forte, independente, competente, bem sucedido. Agora nem conseguia ir ao banheiro. E como o procedimento médico havia enfraquecido o seu sistema imunológico, só eram permitidas poucas visitas e, ainda assim, uma pessoa de cada vez, e apenas por alguns minutos. Uma tarde, uma figura entrou no quarto usando a roupa verde de cirurgia do hospital. A máscara cobria a maior parte do rosto, mas J. T. reconheceu o pai. O pai sentou-se e segurou a mão dele, sem dizer uma só palavra. "Naquele instante, soube que alguma coisa dentro de mim podia sarar", disse J. T.
Com o passar dos meses, o estado físico de J. T. melhorou e ele teve alta. No momento, o seu câncer está em decréscimo. Mas se trata de um câncer que freqüentemente volta e J. T. está plenamente consciente de que ainda não saiu da zona de perigo. Talvez nunca saia.
J. T. mudou. Deixou de ser viciado em trabalho e trabalha as oito horas normais, discutindo planos e estratégias com a equipe de gerenciamento. Tem ido pescar com a filha e o irmão mais novo. Fez recentemente uma viagem com o filho para quatro diferentes faculdades para sentir de perto o ambiente. Viajaram sem pressa, parando em diferentes lugares pelo caminho para ver pontos de interesse, algo que no passado ele teria adiado. J. T. e a mulher começaram um programa de apoio para pacientes com câncer e suas famílias. Ele trouxe novamente o pai para dentro de sua vida e eles estão se conhecendo. J. T. passou por transformação. Tem relacionamentos mais profundos e afetuosos com a própria família e com a família de origem. Seguiu a trilha do herói: foi chamado à aventura, separado do que era conhecido e seguro; lutou com os dragões e os demônios e, finalmente, voltou para casa transformado, mudado em aspectos fundamentais. Uma coisa é certa: J. T. não vai viver o resto da vida do modo como viveu os primeiros 39 anos. Recuperou um maior senso de equilíbrio na vida, uma consciência daquilo que é realmente importante para ele. Ele abriu o coração ao amor que os outros sentem por ele. Ele se permitiu uma expressão bem mais profunda de amor para aqueles que lhe são queridos e aos demais seres humanos.
O chamado de J. T. para a jornada do herói foi alta e selvagem. Dificilmente teria deixado de ouvir o sino que tocou para ele. É importante frisar que a experiência de J. T. poderia Ter acontecido com qualquer pessoa em qualquer idade. É mais provável que tenhamos doenças graves quando envelhecemos, mas em qualquer momento da vida podemos nos ver diante de uma doença que ponha a vida em risco ou de alguma outra crise que ameace o senso de como o mundo "deve" ser.
Kate não recebeu nenhum chamado especial de que possa se lembrar. "Só sei que uma noite estava passeando com meu cachorro na praia e as estrelas estavam especialmente brilhante e próximas. Sentei-me e fiquei olhando para o alto e senti a presença de perguntas que nunca havia feito antes". Kate, aos 46 anos de idade e à noite numa praia que ela conhecia bem, começou a perguntar: "O que estou fazendo aqui?" "O que vai acontecer comigo depois da morte?" "Quem fez tudo isso?" Kate começou a sua busca espiritual no processo da sua vida diária no mundo. Afinal de contas, ela estava simplesmente passeando com o cachorro, algo que já havia feito diversas vezes por dia durante anos. O seu chamado para a aventura foi sutil e fácil de ser ignorado. Ela não escolheu ignorá-lo.
"Senti que estava mudando naquela noite. Comecei a escrever alguns dos meus pensamentos assim que voltei para casa. Nos dias e semanas que se seguiram, percebi que estava mudando"" Kate, sempre uma pessoa extremamente sociável e voltada para os outros, observou que queria passar mais tempo sozinha, ou com alguns poucos amigos chegados. Não estava se tornando anti-social, apenas sabia que teria que arranjar algum tempo para fazer a si mesma mais algumas daquelas perguntas. Descreveu a maioria dos seus relacionamentos até aquele momento como "superficiais" . Começou a abrir mais espaço para ter tempo de qualidade com pessoas de quem gostava muito. A sua "separação" não veio com o isolamento físico que marcou a de J. T., mas sim, simplesmente, com um senso de mudança da sua identidade. Os seus dragões não eram uma doença que põe a vida em risco, mas uma busca silenciosa e indefinida, ainda que exigente, de maior significado na sua vida. Em vez de ignorar esse chamado sutil, ela iniciou uma introspecção e começou a olhar cuidadosamente de uma maneira nova, mais sincera. "Comecei a pensar de fato sobre as coisas que sempre achei que fossem as mais importantes: minha carreira, minha casa, meus bens eram exageradamente importantes para mim – todos aqueles apegos às coisas. Mas agora os meus valores estão mudando. Já não sou tão ambiciosa. Estou usando uma parcela maior do meu próprio tempo para mim e os meus amigos chegados. Não sou tão reservada com eles quanto fui no passado. Acho que percebi que é melhor eu encontrar outro jeito de demonstrar às pessoas que gosto delas e quanto elas são importantes para a minha vida".
A jornada heróica de Kate, embora não seja drástica e dramática como algumas outras, demonstra quão sutilmente essas mudanças psicológicas e espirituais podem ocorrer na meia-idade. Kate está refletindo, talvez pela primeira vez, sobre a sua vida e sobre quem ela é. Nem sempre gosta daquilo que fica sabendo a respeito de si própria, mas isso não a impede de procurar. Schopenhauer compara a vida a uma peça de bordado: durante a primeira metade, olhamos para o direito e durante a Segunda metade vemos o avesso – o qual, frisa ele, não é tão bonito, mas é mais instrutivo, pois podemos ver o modo como os fios foram trabalhados13.
Muita gente vai ignorar ou evitar o chamado à aventura, não obstante as notáveis recompensas, por medo de se soltar da segurança e do mundo que conhecemos. Marion Woodman, analista e escritora junguiana, conta uma história interessante sobre a tentação de evitar a jornada. Fala de certa sessão com o seu analista na qual ela passou a maior parte da hora encontrando maneiras de evitar as questões que estavam ali diante do seu nariz: "Eu estava péssima. Parecia que estava sendo levada aonde não queria ir, e era verdade, e estava fazendo o melhor que podia para tentar controlar a situação." O analista mal disse alguma coisa durante toda a sessão. Quando eu estava saindo e ele ia me acompanhando até a porta, disse-me: "Sabe, dona Woodman, a senhora vai percorrer a estrada. Pode ir como um porco que é levado ao matadouro – berrando ao longo do caminho inteiro – ou pode andar com tanta graça e conscientização quanto puder conseguir". Marion Woodman mostra como a maioria de nós vai berrando ao longo do caminho inteiro14.
Resistimos à nossa trilha, ao nosso destino, por causa do medo. E nunca é demais enfatizar o medo e o temor que podemos sentir quando recebemos o chamado para deixar para trás a segurança. Essa é, para a maior parte de nós, uma experiência assustadora: estamos desesperados para saber que as coisas vão dar certo, mas tudo o que conseguimos ver é o abismo. A jornada exige que nos desapeguemos dos fundamentos de quem fomos e do que temos acreditado sobre nós mesmos e sobre a vida. Queremos ter a certeza de que não seremos aniquilados pelo caminho.
O poema "A Jornada" de Mary Oliver, para mim, capta a escuridão desses sentimentos:
Um dia, você finalmente soube
o que tinha de fazer, e começou
enquanto as vozes ao seu redor
continuavam a gritar
o seu mau conselho –
embora a casa inteira
começasse a tremer
e você sentisse o velho puxão
nos tornozelos.
"Consertei a minha vida!"
gritava cada uma das vozes.
Mas você não parou.
Sabia o que tinha de fazer,
embora o vento entrasse à força
com os seus dedos duros
nas próprias fundações –
embora a sua melancolia
fosse horrível.
Já era tarde
o bastante, e uma noite selvagem
e a estrada repleta de
galhos e pedras caídos.
Mas pouco a pouco,
ao deixar as vozes para trás
as estrelas começaram a arder
perfurando os lençóis de nuvens
e havia uma nova voz
que você lentamente
reconheceu como sendo sua
que lhe fazia companhia
quanto mais você se embrenhava no mundo
decidido a fazer
a única coisa que poderia fazer –
decidido a salvar
a única vida que poderia salvar15.
Este poema fala à emoção real da iniciação da jornada rumo ao Si-mesmo. As imagens são de casa tremendo, vento penetrante com seus dedos duros, uma noite de temporal com uma estrada repleta de galhos e pedras caídos. São João da Cruz chamava este lugar de a "noite escura da alma", Kierkegaard o chamava "desespero"16. Os gregos se referiam à nekya ou morte simbólica. Este é o terreno assustador da jornada. De tão assustador, pode espantar a vida que existe em você. Durante a iniciação da minha jornada da meia-idade, gostaria de ter tido um mapa.
A paisagem de Jung
Carl Jung, como descrevemos na introdução, experimentou o seu próprio grande "confronto
com o inconsciente" no meio da sua vida. Mais do que qualquer outro pensador e escritor, ele desenha uma paisagem
que pode nos ajudar a entender as nossas próprias reações às realidades psicológicas
e espirituais que todos deparamos no meio da vida.
Cada um terá a sua própria história para viver e contar. Não há mapa, mas ter uma compreensão geral do território da jornada é ter uma ferramenta útil e poderosa.
Não é fácil explicar nem captar o significado da obra ou da vida de Jung. O próprio Jung afirmou que sua psicologia não valia nada se não pudesse ser entendida por um fazendeiro suíço17. Isto é um pouco difícil de aceitar, quando nos vemos diante dos seus escritos e da profundidade de conceitos que ele apresenta nas Obras Completas, quando os olhos do leitor ficam vidrados e o leitor se vê imaginando como a sua própria dislexia intelectual não foi diagnosticada por tanto tempo. Jung foi um pensador inspirado e um escritor prolífico, mas as suas teorias e idéias têm um fluxo natural que não é nem linear nem facilmente organizado. Ele se considerava um cientista, um médico, e tentou trazer metodologias empíricas para apoiar as suas teorias. A despeito disto, muitas das suas idéias não se prestam ao tipo de escrutínio que nos habituamos a esperar da ciência. Algumas vezes, sua obra foi criticada por ser demasiadamente "mística", na sua abordagem da psicologia humana, contudo isto é parte da atração que ela exerce sobre muitos. De fato, acredito eu, muitos desses críticos perderam de vista o fato de que a própria palavra psicologia vem do grego psyque, que significa "alma". Em essência, portanto, a psicologia pode ser vista como a ciência da alma.
Além de oferecer meios práticos de examinar a personalidade humana, os relacionamentos e as intervenções para problemas psicológicos por meio da psicoterapia e da análise, Jung tinha a mente aberta para idéias mais amplas, transpessoais, transcendentes. Na sua obra, há um senso de que o indivíduo pode experimentar a si mesmo como parte de um plano cósmico divino.
Assim como nossos corpos físicos são compostos de várias partes, assim também, de acordo com Jung, o é a nossa psique. A psicologia analítica de Jung nos convida e experimentar e a entender tudo aquilo que está bem no fundo de nós. A meta da sua psicologia é tornar consciente aquilo que foi inconsciente. Ele escreveu: "Até onde podemos discernir, o único propósito da existência humana é acender uma luz na escuridão do mero ser"18.
Jung usa a palavra "psique" para designar a totalidade dos processos psicológicos. "A psique engloba todo pensamento, sentimento, comportamento, tanto consciente quanto inconsciente. Funciona como um guia que regula e adapta o indivíduo ao seu ambiente social e físico"19. A psique contém uma capacidade e um desejo auto-reguladores de equilibrar material inconsciente e consciente. Do mesmo modo que os sistemas vivos buscam a homeostase ou equilíbrio, a psique vai tentar compensar a nossa consciência e a nossa inconsciência despertas. Este ato de equilibrar pode ficar evidente no material onírico, por exemplo. O esquema20 que se segue fornece uma referência visual para a descrição que Jung faz da "anatomia" ou dos "órgãos psíquicos" da psique. Este sistema não é estático. Bem ao contrário, há interação, harmonia e conflito dinâmicos, fluxo e estagnação, tensão e integração de opostos. Para Jung, a psique é uma realidade viva, dinâmica, e este esquema é simplesmente uma metáfora para explicar as relações entre os seus diferentes componentes.
A minha intenção não é apresentar uma descrição completa das teorias da psicologia junguiana. Na verdade, a discussão que se segue é um panorama bastante sucinto e superficial de apenas alguns dos principais princípios das suas teorias e o suficiente, espero, para ajudar o leitor a ter uma fundamentação para entender muito do que está contido nos seus livros. Jung escreveu extensivamente e os interessados podem ler os numerosos volumes das Obras completas, ou os muitos livros que contêm excelentes sumários, análises e resenhas da sua obra21. A ilustração que se segue descreve alguns dos mais importantes conceitos das idéias de Jung.

Jung propunha três níveis de consciência dentro da estrutura da psique: consciência, inconsciente pessoal e inconsciente coletivo.
Consciência
A palavra consciência vem do latim conscius, que significa "conhecer com os outros, participar do conhecimento",
ou "inteirar". A consciência inclui todas
as coisas de que estamos inteirados, ou que sabemos.
É porém mais do que isso, pois graças aos seus instintos os animais agem com seus propósitos
e habilidades e sabem
muita coisa sobre seu ambiente e o mundo que os rodeia. A consciência, vista da perspectiva da psicologia
humana, inclui também um entendimento de "saber que sabemos". A consciência implica um autoconhecimento
e um senso do significado desse conhecimento. Há muitas definições de consciência e
existe um debate permanente sobre a sua natureza e evolução22. Mas o entendimento do que mais gosto é relatado numa história de Buda. Jack
Kornfield a retoma num maravilhosos livrinho chamado Os ensinamentos de Buda23.
Dizem que, logo após a sua iluminação, Buda passou por um homem na estrada que ficou surpreendido com o extraordinário fulgor e a presença cheia de paz de Buda. O homem parou e perguntou: "Meu amigo, o que é você? É um ser celestial ou um deus?
"Não", disse Buda.
"Bem, então é algum tipo de mágico ou mago?" De novo Buda respondeu: "Não".
"É um homem?"
"Não".
"Bem, meu amigo, o que você é?"
Buda replicou: "Sou desperto."
A nossa consciência se expande baseada na nossa experiência e na nossa vontade de nos tornarmos conhecedores
de nós mesmos e do mundo. "Tornar-se consciente" é tomar conhecimento de algo que era sabido
antes. A meta do processo de individuação é a pessoa tornar-se cada vez mais consciente, autoconhecedora,
e, como Buda, desperta. À medida que vamos despertando, caminhamos rumo a uma inteireza do ser, experimentamos
uma visão autêntica e completa de nós mesmos, tanto nos aspectos positivos quanto negativos.
A consciência freqüentemente emerge num clarão de inspiração ofuscante. Quem já teve a experiência de uma percepção súbita – "De repente, me dei conta de que..." – já sentiu na vida real a versão daquela personagem de história em quadrinhos representada com uma lâmpada acesa acima da cabeça, gritando "Eureca!"24. Jung observa que "a consciência não cria a si mesma – ela surge de profundezas desconhecidas. Desperta gradativamente na infância e, ao longo da vida inteira, desperta das profundezas do sono, de um estado inconsciente. É como uma criança que nasce diariamente do útero primordial do inconsciente... Não é apenas influenciada pelo inconsciente, mas emerge continuamente dele, sob a forma de inúmeras idéias espontâneas e de clarões súbitos do pensamento"25.
Uma boa metáfora para este clarão repentino de inspiração ou de consciência pode ser encontrada em lojas de cartazes e, em livrarias nos shoppings do mundo inteiro. Você provavelmente já viu figuras geradas por computador, os chamados estereogramas, que hoje são muito populares. Os seus grafismos coloridos, berrantes e repetitivos, que lembram papel de parede, contêm uma figura tridimensional subjacente. Algumas pessoas percebem a imagem quase imediatamente. Observei que as crianças têm maior facilidade para ver a imagem embutida, talvez porque estejam menos presas às maneiras habituais de ver o mundo, enquanto outras podem ficar olhando fixamente para as imagens durante horas, e, com grande frustração, levar as mãos à cabeça, sem conseguir acreditar que há algo mais além daquilo que seus olhos estão vendo.
Assim como ver uma imagem num estereograma, a consciência emerge quando nos permitimos olhar além dos limites da nossa percepção normal. Depois de ver a imagem oculta é mais fácil vê-la novamente. Aquilo que sabemos torna-se parte da experiência do nosso ego consciente. Tendo visto, não se pode deixar de ver. Uma vez tendo sabido, não se pode deixar de saber. Aquilo de que tomamos consciência torna-se um aspecto integrado da nossa realidade pessoal.
Chegar à consciência não é um fenômeno do tipo e/ou ou do tipo tudo/ou nada. Não se chega um certo dia à consciência plena, muito embora parcelas de conhecimento nos venham de repente, de maneira surpreendente. Pelo contrário, é um processo dinâmico, um processo de crescimento, de mudança, de evolução, e segue, de acordo com alguns, um caminho em espiral. Jung denominava o processo circumambulante ou que caminha ao redor de. A escolha dessa palavra difícil de pronunciar foi motivada pela própria raiz da palavra, que significa "que anda em volta", e também pelo seu forte significado ritual. Como assinala Jean Shinoda Bolen26, quando os peregrinos budistas e hinduístas fazem a circumambulação do sagrado monte Kailas, caminham dando a volta completa da base da montanha, como uma oferenda espiritual. Chegar à consciência e à individuação requer muitas vezes um cainho em espiral, à medida que indireta e gradualmente tomamos conhecimento de nossa vida interior. Jung escreveu: "O caminho para a meta parece, a princípio, caótico e indeterminado, apenas gradualmente é que vão aumentando os sinais de que ele conduz a algum lugar. O caminho não é reto e parece progredir em círculos. Um conhecimento mais preciso comprovou que se trata de uma espiral..."27.
O ego
Jung empregava a palavra "ego" para designar a função organizadora da mente consciente,
aquilo que nos dá o nosso senso de identidade, continuidade e personalidade. Composto de percepções
conscientes, lembranças, pensamentos e sentimentos, o ego é o "guardião da consciência",
colocado no limiar entre os mundos exterior e interior. É a parte de nós que nos permite dizer "eu"
ou "mim", e por meio dele somos capazes de nos ver como seres separados, diferenciados dos demais. Na
verdade, o ego representa uma parcela bem pequena da psique total, mas muitos de nós concluímos que
aquilo que conhecemos a nosso respeito por meio do ego é tudo o que existe. A maioria de nós, despreparados
que somos para olhar dentro de nós mesmos, geralmente pensamos saber quem somos. Isto é, acreditamos
que sabemos tudo o que há para ser conhecido a nosso respeito. Confundimos nosso ego com tudo que somo
ou que podemos ser. Em outras palavras, o ego muitas vezes se pensa como o centro da psique. Afinal de contas,
o que mais há?
A crença de que o ego é o centro da psique é a crença dos povos primitivos que pensam que o sol gira em torno da terra, e não o inverso. Embora a ciência e a observação tenham provado que esses povos estão errados, muita gente se recusa a abandonar aquele pressuposto considerado válido há tanto tempo. O dogmatismo que permite que se conservem pontos de vista que são completamente falsos diante do fato inquestionável está entre os piores aspectos da natureza humana e é por demais comum; afinal, não faz tanto tempo que Galileu foi forçado pela Inquisição a retratar-se da sua "heresia" de que a terra gira em torno do sol. Quando Galileu, que estava de joelhos, se ergueu diante dos inquisidores, ouviram-no sussurrar: "E pur si muove" – "E ainda se move".
A idéia de que o ego representa tudo o que somos pode levar a um perigosos sentimento de inflação: eu sou tudo o que há, sou a mais importante entidade do universo. Não obstante, a maior tarefa da primeira metade da vida envolve o desenvolvimento do ego e a progressiva separação entre o ego e as partes mais profundas da psique. Em outras palavras, é necessário para o desenvolvimento do ser humano perceber-se como um ser distinto, independente. Embora este seja um curso normal de desenvolvimento, o senso de ser separado pode nos fazer sentir alienados dos outros e de algumas conexões vitais com o universo.
O inconsciente pessoal e os complexos
Jung descreveu assim o inconsciente pessoal e o seu conteúdo: "tudo de que sei, mas em que no momento
não estou pensando; tudo de que uma vez fui consciente, mas agora esqueci; tudo percebido pelos meus sentidos,
mas não notado pela minha mente consciente; tudo aquilo que, involuntariamente e sem prestar atenção,
sinto, penso, lembro, quero e faço; todas as coisas futuras que estão tomando forma em mim e em algum
momento vão chegar ao consciente; tudo isto é conteúdo do inconsciente"28.
Como Jung frisa, experiências pessoais que não são reconhecidas pelo ego são armazenadas no inconsciente pessoal. Os acontecimentos, experiências, sentimentos e pensamentos que escolhemos não guardar na consciência, não vão necessariamente desaparecer da psique. Embora nada daquilo que já foi experimentado deixe de existir em alguma forma de memória, algumas dessas experiências são relegadas ao inconsciente simplesmente porque são irrelevantes ou sem importância para nossas vidas. Outras experiências, contudo, permanecem no inconsciente porque são ou foram traumáticas. Como bem expressa a letra da canção "The way we were": "O que é doloroso demais lembrar, simplesmente escolhemos esquecer". O inconsciente pessoal se revela em lapsos da língua e em reações emocionais fortes (tanto positivas quanto negativas) a outras pessoas. Na maioria das vezes, expressa o seu conteúdo na produção de sonhos, arte, poesia e outros símbolos espontâneos.
As unidades funcionais que fazem parte do inconsciente pessoal são chamadas complexos. Trata-se de uma idéia junguiana que entrou na linguagem popular, como quando falamos de "complexo de poder", "complexo de inferioridade", "complexo de mãe". Os complexos são grupos de conteúdos inconscientes que se juntam ou formam constelações. Um complexo é portanto um grupo de "idéias afinadas com os sentimentos" e associadas, "ligadas por uma carga emocional compartilhada". Os complexos são inconscientes, altamente emocionais e são sentidos como autônomos. Isto é, os complexos se sentem como se não fossem "eu". De fato, quanto mais inconsciente for um complexo, mais autônomo ou separado se sente. Apesar de ser inconsciente, ou muito provavelmente por isso mesmo, os complexos agem como personalidades divididas, parciais, independentes e separadas. Afetam drasticamente as nossas escolhas, o nosso comportamento e os nossos relacionamentos. E mais importante, Jung considerava os complexos como partes vitais da constituição psicológica de toda pessoa, aspectos normais de uma personalidade saudável. Todos temos complexos de vários tipos e, à medida que crescemos e nos desenvolvemos, esses complexos se tornam conscientes para nós. Mas alguns complexos vão permanecer profundamente inconscientes, e quanto menos consciente for um complexo, maior o seu grau de autonomia e mais iremos projetar o seu conteúdo sobre os outros. Vale dizer, veremos nas outras pessoas aquilo que nos recusamos a ver em nós mesmos.
As idéia junguianas do ego e do inconsciente pessoal, inclusive a noção de complexo, não eram consideradas controvertidas. Freud introduziu inicialmente o "complexo de Édipo" e ele e outros escreveram e conversaram sobre essas idéias desde a década de 1860. Jung entrou na arena de maiores controvérsias quando escreveu sobre a terceira área da consciência.
O inconsciente coletivo e os arquétipos
O inconsciente coletivo (que mais tarde ele denominou psique
objetiva) era para Jung a camada da psique que contém
elementos herdados que são inconscientes, mas distintos do inconsciente pessoal. Ele denominou as unidades
funcionais do inconsciente coletivo arquétipos, que significam "primeiro", ou "original", um "protótipo".
Jung referiu-se originalmente aos arquétipos como "imagens primordiais" e os via como similares
à visão etológica dos mecanismos inatos de liberação que eram observados em
animais por biólogos comportamentalistas. Jung escreveu que a função dos arquétipos
"não é denotar uma idéia herdada, mas sim um modo herdado de funcionamento, que corresponde
à maneira inata pela qual o pintinho emerge do ovo, o pássaro constrói o ninho, um certo tipo
de vespa pica o gânglio motor da lagarta e as enguias encontram o caminho para as Bermudas. Em outras palavras,
é um padrão de comportamento29. Jung foi freqüentemente mal interpretado
por ter afirmado que o inconsciente coletivo (e os seus conteúdos, os arquétipos) era a herança
de características adquiridas que haviam sido aprendidas por uma antepassado individual de uma espécie
e, em seguida, passadas adiante à sua progênie por algum mecanismo genético. Mas não
era isso que ele queria dizer. Em vez disso, sustentava que todo ser humano, na verdade, todo animal, nasce com
respostas a situações "típicas". Jung não acreditava que os seres humanos
nascessem como papéis em branco, tabulae rasae; ao contrário, estavam preparados para as experiências
da vida humana, do mesmo modo que os pássaros estavam, de maneira inata, prontos para construir ninhos ou
a fêmea da tartaruga marinha estava preparada para retornar ao local onde nasceu para lá botar os
próprios ovos. Assim como esses animais, os seres humanos nascem com um tipo de "planta baixa"
para a vida. Por exemplo, um bebê tem medo natural de cair, e os experimentos do paredão de rocha
visual mostram como este medo está presente mesmo em bebês muito pequenos que não têm
nenhuma experiência de quedas. É óbvio que esse medo inato de cair possui um enorme valor de
sobrevivência para a espécie humana, pois pereceríamos sem este conhecimento inato. Algumas
das situações típicas relativas à condição humana e representadas pelos
arquétipos incluem a predisposição para experimentar os conceitos de mãe, pai, filho,
Deus, Grande Mãe, velho sábio, nascimento, morte, renascimento, separação dos pais,
rituais de cortejo, casamento, e assim por diante. As idéias junguianas sobre o inconsciente coletivo e
os arquétipos trouxeram o trabalho dos psicólogos psicodinâmicos para o âmbito das ciências
biológicas. Disciplinas acadêmicas, tais como a antropologia estrutural, a psicolingüística
e a sociobiologia, incluem, todas elas, conceitos similares à descrição que Jung faz dos arquétipos.
A idéia dos arquétipos não se originou com Jung. Jung reconhecia que filósofos tão
antigos quanto Platão já descreviam as idéias dele.
Para Jung, os arquétipos eram universais. Independentemente da experiência da pessoa, da cultura na qual se nasce, todos herdam as mesmas formas arquetípicas – que são então completadas satisfatoriamente e desenvolvidas para constituir uma imagem psicológica definitiva, pela experiência real. Complexos são os modos pelos quais os arquétipos se expressam especialmente na psique pessoal30. Embora haja tantos arquétipos quanto situações humanas "típicas", na meia-idade é crucial ter o conhecimento de quatro deles em particular: o Si-mesmo, a persona, a sombra e a anima/animus.
Aspectos da persona, da sombra e da anima/animus e a sua relação com a meia-idade serão discutidos em pormenor no capítulo seguinte. Por ora, vamos voltar a nossa atenção para a noção junguiana de Si-mesmo. É com as suas idéias sobre o Si-mesmo, o inconsciente coletivo e os arquétipos que Jung dá o salto do psicológico ao espiritual. E um conhecimento espiritual, transcendente de nós mesmos, é um aspecto crítico para entender a transição da meia-idade e navegar por ela.
O Si-mesmo – a alma
De acordo com Jung, o Si-mesmo é o centro da psique. É o "arquétipo central do inconsciente
coletivo, como o sol é o centro do sistema solar. O Si-mesmo é o arquétipo da ordem, da organização
e da unificação; atrai para si e harmoniza todos os arquétipos e as suas manifestações
em complexos e consciência. Unifica a personalidade, dando-lhe um sentido de "unicidade" e "firmeza"31. O Si-mesmo é o arquétipo da inteireza e centro regulador da psique. É
um aspecto da psique que é responsável por preencher a "planta baixa" para a vida.
No nascimento, tudo é Si-mesmo: o ego latente está em completa correspondência com o Si-mesmo. Com o passar do tempo, porém, o ego começa a se separar do Si-mesmo. À medida que crescemos, e no decorrer de um desenvolvimento normal, saudável, o ego vai ficando cada vez mais diferenciado do Si-mesmo. É assim que deve ser, pois as tarefas da primeira metade da vida requerem o estabelecimento de uma firme identidade e o desenvolvimento de um ego forte, um senso nítido do "eu". Estabelecer um senso de identidade pessoal, desenvolver uma carreira, casar-se ou entrar num relacionamento significativo, dar à luz e criar filhos, contribuir com a sociedade, e se tornar independente da família de origem, tudo isso depende do estabelecimento de uma identidade egóica e de um senso nítido do "eu". Na meia-idade, mudam os desafios psicológicos. Na ausência de um acontecimento traumático que inicie o princípio da individuação de uma pessoa jovem, esse processo é uma tarefa reservada à segunda metade da vida.
A meta do Si-mesmo é a inteireza e a completude psicológicas. Mas o Si-mesmo é mais do que um construto de uma teoria da personalidade. Para Jung, o Si-mesmo incorpora alma, mistério, Deus-imagem dentro, a essência básica que não pode ser conhecida. A lógica ocidental está mal equipada para entender aquilo que é numinoso, ou que inspira temor reverencial e parece estar fora do alcance do racionalismo, e a noção junguiana do Si-mesmo está nesse âmbito. Na sua autobiografia, ele descreveu o poder do Si-mesmo arquetípico para experimentar tanto a personalidade exclusiva da pessoa quanto a conexão da pessoa com tudo o que existe: "Nesse conhecimento nos experimentamos concomitantemente com o limitado e o eterno, como o mesmo e como o outro. Ao nos sabermos únicos nas nossas combinações pessoais – isto é, basicamente limitados – possuímos igualmente a capacidade de nos tornar conscientes do infinito"32. Mas é a linguagem da arte, da poesia, da imaginação, do mito e da religião que chega mais perto de descrever o poder e o mistério do Si-mesmo. O poeta Rilke compreendeu a energia transcendente, semelhante à alma, do Si-mesmo, quando este se funde com o divino: "Estou circundando Deus, em torno da antiga torre / e venho dando a volta há mil anos / e ainda não sei se sou um falcão, ou uma tempestade / ou uma grande canção"33.
Uma das razões pelas quais o nosso pensamento lógico tem tanta dificuldade com a idéia de transcendência (incorporada no Si-mesmo ou na alma) é o nosso pressuposto de que a mente/consciência está localizada num certo lugar do espaço e do tempo. No pensamento ocidental, a localização da mente é no cérebro34. Nesta visão limitada, estamos presos a um cérebro, em uma vida inteira, e, pior, estamos condenados, porque, se a mente/ o Si-mesmo/a alma está localizada ali, então morre com o cérebro e o corpo.
Mas, então, como é que a pessoa forma uma base para a crença de que há algum aspecto espiritual dos seres humanos que é capaz de transcender a morte e estar em relação eterna com Deus, Cristo, o Divino, Jah, o Grande Espírito, a Mãe Cósmica, Tao, ou como quer que a pessoa escolha chamar esta força? Por que milhões de pessoas, de budistas Mahayana a taoístas e cristãos fundamentalistas conservam tais crenças?
Jung escreveu: "Há indícios de que pelo menos uma parte da psique não está sujeita às leis do espaço e tempo... A psique às vezes funciona fora da lei espaço-temporal da causalidade..."35. Esta afirmação requer uma crença na natureza não-local da mente. Jung sustenta aí que a nossa essência mesma, nossa esseidade, não está restrita ao nosso corpo e ao nosso cérebro. Ao invés disso, existe algum aspecto atemporal, não-espacial, além das limitações do mundo tal como o percebemos pelos cinco sentidos. Este é o âmbito no qual Jung entra com as suas idéias sobre o Si-mesmo e a consciência humana.
O aspecto transcendente da consciência humana e o espectro da consciência que existe, embora não seja englobado pelo pensamento racionalista ocidental, está bastante à vontade na filosofia oriental, na qual se dá maior valor à expansão da consciência e à fusão com o infinito. É sobre este espectro de consciência que Jung está falando, quando descreve o inconsciente coletivo, os arquétipos e o papel central do Si-mesmo. "Dia após dia", escreveu ele, "vivemos longe das fronteiras da nossa consciência... Sem o nosso conhecimento, a vida do inconsciente vai prosseguindo dentro de nós... comunicando-nos coisas... fenômenos sincrônicos, premonições e sonhos que se realizam"36. A idéia junguiana do Si-mesmo está mais próximas das escolas orientais de pensamento e dos místicos cristãos do que das preocupações habituais da psicologia moderna. No nível do inconsciente coletivo, a pessoa percebe a unidade e a inter-relação de todas as coisas. Cada coisa, pessoa, animal, planta, da menor partícula atômica à maior galáxia, todos são partes do Um.
O Si-mesmo é a ponte de ligação com esta unidade, de acordo com Jung. Como Jean Shinoda Bolen escreveu, "assim como as estrelas não podem ser vistas ao meio-dia, mas não obstante lá estão, nas nossas mentes ocidentais não há as condições certas para 'ver' um padrão de unicidade subjacente"37. Mas os pensadores de todos os tempos têm estado convencidos desta "unicidade" da todas as coisas e da unidade subjacente que está ao nosso redor:
* Quanto mais Deus está em todas as coisas, mais está fora delas. Quanto mais está dentro, mais está fora.
De Mestre Ekhardt, místico medieval cristão38.
* Não pergunte se o princípio está nisto ou naquilo; está em todos os seres. É por esta razão que aplicamos a ele os epítetos de supremo, universal, total... Ele ordenou que todas as coisas sejam limitadas, mas é ele próprio ilimitado, infinito... Está em todas as coisas, mas não é nem diferenciado nem limitado.
Do livro de Chuang-tzu (tradição taoísta, virada dos Séculos IV e III a. C.)39.
* Jesus disse: "Eu sou a luz que está sobre todas as coisas e eu sou tudo.
Tudo surgiu de mim, e a mim tudo foi dado.
Quebre um pedaço de madeira, lá estou eu.
Erga a pedra, e lá me encontrará.
Do Evangelho de Tomé (textos coptas)40.
* O Buda puro é como espaço, sem contorno ou forma, tudo penetra.
Do Kegon Sutra41.
* Vivo, mas não sou eu quem vive, é o Cristo que vive em mim.
Da Bíblia Sagrada, São Paulo (Gálatas, 2,20)42.
* Quando contemplares o Criador, lembra-te de que o seu acampamento se estende para além, infinitamente além, e assim também na tua frente e atrás de ti, para leste e oeste, norte e sul, acima e abaixo, infinitamente por toda parte. Esteja ciente de que Deus modelou tudo e está dentro de tudo. Não há mais nada.
Da cabala (tradição mística judaica)43.
* No um há o todo.
No todo, há o um.
Se souberes isto,
Nunca te preocuparás em ser incompleto.
De Crendo na Mente, Seng Ts'na, (século III a. C.) – Zen44.
* Aquele que habita na semente e dentro da semente, a quem a semente não conhece, cujo corpo é a semente, o que arranca (governa) a semente lá dentro, é o Si-mesmo, o arrancador (o governador) lá dentro, o imortal; aquele que não é visto, mas vê; aquele que não é ouvido, mas ouve; aquele que não é percebido, mas percebe; aquele que não é conhecido, mas conhece. Não há outro que veja a não ser ele, não há outro que ouça a não ser ele, não há outro que perceba a não ser ele, não há outro que saiba a não ser ele. Esse é o teu Si-mesmo, o que governa lá dentro, o imortal. Tudo o mais provém do mal.
Do Upanixade Brihadaranyaca45.
* Mitaukuye Oasin ("Somos todos parentes").
Da tradição sioux de Dakota/Lakota46.
* Tudo aquilo que se levanta tem de convergir.
De Pierre Teilhard de Chardin47.
Jung estava perfeitamente ciente de que o seu conceito do Si-mesmo refletia o seno de unicidade com todas as coisas e de que esta idéia necessariamente evoca a idéia do Divino. E é neste poderoso mistério subjacente que ele entra quando fala do Si-mesmo. Ele escreveu: "Significa que a Mente é 'apenas' a nossa mente? Ou que a nossa mente é a Mente? Certamente a segunda... não há hybris nisto, pelo contrário, é uma verdade perfeitamente aceita (no Oriente), ao passo que conosco (no Ocidente) equivaleria a dizer 'Eu sou Deus'"48. Jung é claro, não está dizendo "Eu sou Deus". Mas está defendendo fortemente a sua opinião, que tem sido fundamental no pensamento oriental, de que somos um com Deus e que deus está em todos nós. Todos nós estamos íntima e definitivamente ligados.
À primeira vista, perece haver contradições fundamentais neste processo de chegar a Ter uma maior consciência e individuação. Em primeiro lugar, quanto mais conscientes e individuados nos tornamos, mais somos capazes de nos entender com indivíduos separados e únicos. Por outro lado, a noção de Si-mesmo sugere a idéia de ser um com o universo. Mais uma vez, devemos nos afastar do modo de pensar do tipo maniqueísta: ou branco/ou preto, ou isto/ou aquilo. Somos ambas as coisas ao mesmo tempo. É por meio do processo de individuação que recuperamos a inteireza original da qual emergimos. Mas agora temos a oportunidade de recobrar um senso de unicidade que já não é inconsciente. Ao invés disso, é percebido de maneira direta e consciente.
Ao longo das nossas vidas, a nossa inflação inicial ("Eu sou tudo") tem estado em constante conflito com a alienação ("Eu sou separado e tudo"). A descoberta consciente do Si-mesmo leva em consideração uma nova experiência, uma dialética entre ego e Si-mesmo que vem substituir aquilo que o analista junguiano Edward Edinger chama de "movimento pendular entre inflação e alienação"49. Podemos começar a perceber que somos únicos no mundo inteiro, que nunca ninguém foi exatamente quem somos. Ao mesmo tempo, somos um grão de areia na praia. Todos nós vamos experimentar os fundamentos do grande drama humano. Todos somos parte do mesmo mistério. Como uma colherinha de água retirada do grande oceano, somos, em última análise, feitos do mesmo material como todo o resto do cosmo e destinados a retornar a ele.
Na meia-idade, quando falamos do Si-mesmo que exige se expressar, é crucial perceber a profundeza do mistério que é a força por detrás dos sintomas e da confusão freqüentemente experimentados. Na meia-idade, o poder do Si-mesmo emergente é uma força tremenda com a qual ajustamos contas, uma confrontação que é nada mais nada menos do que um encontro com o Absoluto. Na meia-idade, questionamos o nosso relacionamento com Deus e o sagrado e ponderamos o significado da nossa existência. Para alguns, essas perguntas são feitas conscientemente. Para outros, são inconscientes, e expressadas através de sintomas físicos, psicológicos e espirituais. A maioria de nós vive desconectada de partes de nós mesmos, dos outros e de um relacionamento com algo maior que nós mesmos. No âmago da transição da meia-idade está a nossa busca de significado espiritual. Jung dizia que nunca tinha visto um paciente com mais de 38 anos cujo problema não fosse "o de encontrar uma perspectiva religiosa na vida"50.
Conhecer o Si-mesmo exige que olhemos profundamente para dentro de nós e que tornemos consciente o que é inconsciente. Mas este processo exige que nos desapeguemos de muitas crenças que parecem nos ter servido bem. É necessário que olhemos honestamente para dentro de nós e entendamos a nós mesmos de modos diferentes. Isso inclui conhecer o nosso próprio lado de sombra, o nosso lado escuro. A consciência depende de conhecer o até então desconhecido. Dentro da escuridão está o nosso resto de humanidade, sabedoria, compaixão e compreensão do significado da nossa vida e a nossa conexão com o espírito. Jesus disse: "Se deres à luz aquilo que está dentro de ti, aquilo que tens te salvará. Se não deres à luz aquilo que está dentro de ti, aquilo que não deres à luz te destruirá"51.
Muita gente vai tentar atrasar ou adiar esta assustadora jornada de transformação por meio de hábitos que vão mitigar a dor da passagem. Outros encontrarão todo tipo de comportamento de evitação, e se dedicarão a um constante "fazer", de maneira a nunca deixarem um momento breve, não resguardado, no qual possam aparecer as perguntas que dão a partida na iniciação. Algumas pessoas buscam soluções simples para a dor que estão sentindo. Freqüentemente procuram um senso instantâneo de espiritualidade (que chamo de espiritualidade "light") para lidar com as exigências da segunda metade da vida e com a inevitabilidade da morte. Jung escreveu: "Há um número demasiadamente grande de pessoas que são equivocadamente levadas a se agarrar a essas idéias 'mágicas' e a aplicá-las externamente, como um ungüento. As pessoas farão qualquer coisa, por mais absurda que seja, a fim de evitar encarar as próprias almas52.
Mas temos mesmo de encarar as próprias almas. A tarefa da meia-idade, para cada um de nós, é iluminar aquilo que tem sido inconsciente e levar luz à escuridão. A meia-idade é o tempo no qual o inconsciente emerge com grande poder e energia.
1 M. Estrher Harding, The I and the not I, Nova Jersey, Princeton University Press, Bolligen Series, 1965
2 Abraham Maslow, Toward a Psychology of Being, Nova Jersey, Van Nostrand, 1962
3 Carl Jung, "Definitions", CW 6, par. 757
4 Abraham Maslow, "Deficiency Motivation and Growth Motivation", in M. R. Jones (org.), Nebraska Symposium on Motivation, Lincoln, University of Nebraska Press, 1955. Ver também S. R. Maddi, Personality Theories: A Comparative Analysis, Homewood, IL, Dorsey Press, 1972, onde há uma discussão dos teóricos da realização.
5 Daryl Sharp, C. G. Jung Lexicon: A Primer of Terms and Concepts, Toronto, Inner City Books, 1991, p. 68
6 Carl Jung, "The Psychology of the Transference", CW 16, par. 400.
7 Joseph Campbell e Bill Moyers, The Power of Myth, Nova York, Doubleday, 1988, p. 123 (cf. trad. bras.: O poder do mito, Palas Athena, São Paulo). Ver também James Hollis, Tracking the Gods: The Place of Myth in Modern Life, Toronto, Inner City Books, 1995
8 Joseph Campbell, The Hero with a Thousand Faces, Princeton, NJ, Princeton University Press (Bolligen Series), 1949 (2ª edição, 1968, p. 30. Cf. trad. bras.: O herói de mil faces, Cultrix, São Paulo
9 Joseph Campbell, op. cit., p. 30.
10 George Lucas, que escreveu, produziu e dirigiu a trilogia Guerra nas estrelas, era um estudioso ávido da obra de Campbell sobre o mito do herói. Os temas de profunda ressonância desta série de filmes estão solidamente baseados em fortes padrões arquetípicos e imagens que são encontradas nos mitos do herói de todas as culturas. Campbell admirava imensamente o trabalho de Lucas, e, na verdade, as entrevistas feitas por Bill Moyers com Joseph Campbell para a série O Poder do Mito, da PBS, foram realizadas no Rancho Skywalker, na Califórnia.
11 Sheldon Kopp, Guru: Metaphors from a Psychotherpist, Nova York, Bantam Books, 1993, p. 41. Cf.: trad. bras.: A passagem do meio, Paulus, São Paulo.
12 James Hollis, The Middle Passage: From Misery to Meaning in Midlife, Toronto, Inner City Books, 1993, p. 41. Cf. trad. bras.: A passagem do meio, Paulus, São Paulo
13 A. Schopenhauer, Parega e Paralipomena: Short Philosophical Essays (trad., de R. F. Payne), Oxford Clarendon, 1974, p. 102.
14 Marion Woodman, Holding the Tension of the Opposites (fita de áudio), Boulder, CO, Sounds True Recordings, 1991.
15 Mary Oliver, "The Journey" in Dream Work, Nova York, Atlantic Monthly Press, 1986, pp. 38-39. Agradeço muito ao poeta David Whyte que me apresentou esta obra maravilhosa na Conferência da Common Boundary, em 1993.
16 S. Kierkegaard, Fear and Trembling, the Sickness Unto Death, Garden City, NY Doubleday Anchor, 1954, p. 1579
17 Lenore Thomson Bentz, "Seasoned Reflections on Midlife Transition" (entrevista com Aryeh Maidenabum e Daniel Levinson), Quadrant, 1992, vol. 25, n.1, p. 9.
18 Carl Jung, Memories, Dreams, Reflections, Nova York, Vintage Books, 1965, p. 326. Cf. trad. bras.: Memórias, sonhos e reflexões, Nova Fronteira, Rio de Janeiro
19 Calvin S. Hall e Vernan J. Norby, A Primer of Junguian Psychology, Nova York, New American Library, 1973, p. 32
20 Adaptado de Anthony Stevens, On Jung, Nova York, Penguin Books, 1990, p. 29.
21 Carl Gustav Jung (1875 - 1961). Embora a obra de Jung ofereça grande inspiração e entendimento sobre o processo de transformação e mudança da meia-idade, bem como ao longo da vida como um todo, é importante notar que o próprio Jung teria recusado qualquer tipo de condição de "guru". Ele estava firmemente convencido de que as suas idéias eram fluídas, e não teorias estáticas gravadas na pedra, e que seriam ampliadas e modificadas pelas futuras gerações de pensadores que se esforçassem para entender o mesmo tipo de problemas humanos e metafísicos como ele. De fato, estava preocupado com a fidelidade a um indivíduo particular, ao invés de a um conjunto de pensamento no qual Freud insistia, por isso não gostava muito das pessoas que se autodenominavam "junguianas". Ao ouvir falar deste costume, comentou: "Estou satisfeito por ser Jung e não um junguiano". Carl Gustav Jung , Letters, vol. I (1946), G. Adler (org.), Priinceton, NJ, Princeton University Press, 1975, p. 405. Citado também por Aryeh Maidenbaum, diretor executivo da Fundação C. G. Jung de Psicologia Analítica, no Prefácio de Robert Hopcke, A Guided Tour of the Collected Works of C. G. Jung, Boston, Shambhala, 1992, p. ix e Harry A Wilmer, Understandable Jung, Wilmette, Il., Chiron, 1994, p. 4.
22 Numerosos escritores abordaram o tema da consciência. Além dos muitos escritores junguianos, há entre eles cientistas, filósofos e mestres de religião ao longo dos tempos. Os textos seguintes podem ser de interesse: Erich Newmann, The Origins and History of Consciousness, Princeton, NJ, Princeton University Press, 1954; Julian Jaynes, The Origins of Consciousness in the Breakdown of the Bicameral Mind, Boston, Houghton Mifflin, 1976; Jeffrey Mishlove, The Roots of Consciousness Explained, Boston, Little Brown, 1991; Robert Ornstein, The Psychology of Consciousness, Nova York, Harcourt Brace Jovanovich, 1977 (2ª ed.); Robert Ornstein, The Evolution of Consciousness, Nova York, Simon and Shuster, 1991; Robert Ornstein (org.), The Nature of Human Consciousness: A Book of Readings, São Francisco, W. H. Freeman, 1976; Itzhak Bentov, Stalking the Wild Pendulum: On the Mechanics of Consciousness, Nova York, Batam Books, 1977; John Rowan Wilson, The Mind, Nova York, Time-Life Books, 1969.
23 Jack Kornfield (org.), Teaching of the Buddha, Boston, Shambhala, 1993.
24 É interessante notar que o advento da consciência e a própria criação aparecem nas culturas e religiões de todos os povos quando da criação da luz. Ernest Cassirer, The Philosophy of Symbolic Forms, vol. 2 (trad. Ralph Manheim), New Haven, Yale University Press, 1953-57, pp. 94ss (3 volumes). Citado in Erich Newmann, The Origins and History of Consciousness, Pinceton University Press, 1954.
25 Carl Jung, CW 11, par. 935
26 Jean Shinoda Bolen, Crossing to Avalon, São Francisco, Harper, 1994, p. 194
27 Carl Jung, "Psychology and Alchemy", CW 12, p. 28
28 Carl Jung, CW 8, par. 382.
29 Carl Jung, CW, 9 i, par. 99.
30 Por exemplo, o arquétipo da mãe (aquilo que instintivamente esperamos que a "Mãe" seja: nutriz, protetora, amorosa) coloca as bases para o nosso próprio relacionamento com a nossa mãe real, pessoal. As características e o comportamento da nossa própria mãe podem ou não coincidir com as nossas expectativas inconscientes. A nossa própria mãe pode não ser capaz de nos proporcionar sequer os aspectos básicos da maternidade. A nossa experiência pessoal irá constituir um complexo (por exemplo, um "complexo da mãe negativa"), por intermédio da lei de similaridade e da lei de contigüidade, vale dizer, um arquétipo torna-se ativo quando a pessoa se encontra na proximidade (contigüidade) de uma situação ou pessoa semelhante ao arquétipo em questão. "Quando um arquétipo é ativado com êxito, ele se auto-acrecenta pela sua ativação, que são embutidos num complexo que se torna então funcional no inconsciente pessoal". A medida na qual o complexo é inconsciente determinará o seu efeito sobre os outro relacionamentos. Um homem pode se casar e o relacionamento exterior com a sua mulher é de parceiro/amante/esposo, mas as suas verdadeiras expectativas inconscientes são pela "mãe", e ele age como se esperasse que a mulher/parceira reagisse a ele das mesmas maneiras que a mãe negativa. Ver Anthony Stevens, op. cit., pp. 32-35. Ver também Anthony Stevens, Archetypes, Nova York, Quill, 1983.
31 Calvin S. Hall e Vernon J. Nordy, op. cit., p. 51
32 Carl Jung, Memories, Dreams, Reflections, p. 325.
33 Rainer Maria Rilke, "A Book for the Hours of Preyer" in Robert Bly (trad.), Selected Poems of Rainer Maria Rilke, Nova York, Harper and Row, 1981, p. 13.
34 É interessante notar que a maioria das culturas "primitivas" acreditam que a fonte da consciência provavelmente reside no centro do corpo.
35 Carl Jung, Memories Dreams, Reflections, p. 304.
36 Ibid, p. 302
37 Jean Shinoda Bolen, The Tao in Psychology: Synchronicity and the Self, São Francisco, Harper and Row, 1979, p. 7.
38 Aldous Huxley, The Perennial Philosophy, Nova York, Harper Colophon Books, 1945, p. 2 (discutido em Larry Dossey, Recovering the Soul: A Scientific and Spiritual Search, Nova York, Bantam Books, 1989, pp. 48-49).
39 Aldous Huxley, op. cit., p. 7.
40 O Evangelho de Tomé, descoberto em 1945, como parte dos textos cópticos da Biblioteca de Nag Hammadi. The Godspel of Thomas: The Hidden Saying of Jesus (trad. Marvin Meyer), Nova York, Harper Collins, 1992, p. 65.
41 A First Zen Reader, compilado e traduzido por Trevor Leggett, Tóquio, Charles E. Tuttle, 1960, p. 46.
42 As citações da Bíblia são tiradas da Bíblia de Jerusalém, Paulus Editora, São Paulo, 1995.
43 Daniel Matt, The Essential Kabbalah: The Heart of Jewish Mysticism, São Francisco, Harper, 1995, p. 25.
44 Seng Ts'an, "Believing in Mind", in Eknath Easwaran, God Makes the Rivers to Flow: Selections from the Sacred Literature of the World (2ª ed.), Tomales, CA. Nilgiri Press, 1991, p. 96.
45 "The Upanishads", The Sacred Books of the East, vol I (trad. F. Max Muller), Londres, Oxford University Press, 1926, p. 136.
46 A. C. Ross, Mitaukuye Oyasin, Fort Yates, ND, Bear, 1989.
47 Teilhard de Chardin, The Phenomenon of Man, Nova York, Harper and Row, 1955.
48 Carl Jung, Psycholpgy and the East, (trad. R. F. C. Hull)., Princeton, NJ, Princeton University Press, 1978, p. 69.
49 Edward Edinger, Ego and Archetype, Boston, Shambhala, 1992, p. 103.
50 Carl Jung, Psychology and Religion: West and East (trad. R. F. C. Hull) CW 11, par. 509. A citação completa é "dentre todos os meus pacientes na segunda metade da vida - vale dizer, acima de 35 anos - , não houve um único cujo problema não fosse, em última análise, encontrar uma perspectiva religiosa da vida. É seguro dizer que cada um deles se sentia mal porque havia perdido aqueilo que as religiões vivas de todas as épocas têm dado a seus seguidores, e nenhum daqueles que não recuperou a sua perspectiva religiosa ficou realmente curado. Claro que isto nada tem a ver com um credo em particular, ou uma filiação a uma igreja."
51 The Godspel of Saint Thomas, p. 53.
52 Carl Jung, Psychology and Alchemy, CW 12, par. 126.